Pular para o conteúdo principal

Saindo do Brete




Em 2012 a empresa onde trabalho passou a oferecer licença não remunerada aos tripulantes.
Esse era um desejo antigo meu. Há muito tempo vinha dizendo que se me fosse oferecida uma licença agarrava sem pensar.
Até que ofereceram. Aí deu um medo danado - É aquela velha história do “cuidado com o que deseja...”.
A decisão de aceitar a licença ou não ficou baseada em dois fatores:De um lado o coração e de outro o medo.
O coração fala tudo aquilo que a gente lê nos livros e ouve nas músicas: 'A vida tem que ser vivida agora', 'arrependa-se do que fez e não do que não fez', 'viva o seu sonho!' 
Já o medo tem o pé cravado no chão: E se a empresa não precisar mais de ti após a licença? E se a grana faltar? E se todo mundo achar que você é um vagabundo? 
Bom, vencemos o medo. Eu tirei a licença e foi maravilhoso.
Passamos quatro meses morando a bordo pela região de Ilha Grande e Paraty incluindo nisso a ida de Porto Alegre até lá e um retorno de Florianópolis até Rio Grande em solitário.
Uma experiência incrível. Quando voltamos só pensávamos na próxima viagem.
Bom, demorou um pouco. 
Talvez mais do que gostaríamos.
Mas estamos indo novamente.
Temos que aproveitar o que talvez seja a última "janela de oportunidade" de fazermos a viagem com toda a família.
E novamente é engraçado notar a reação das pessoas.
Algumas me olham com um olhar reprovador, como se eu fosse meio maluco ou totalmente irresponsável:
Outra vez? De onde você tirou essa idéia? Não é perigoso?Como vai ficar o dinheiro? Vocês devem ser milionários. Um ano sem trabalhar? E o retorno? Como fica se a empresa não te quiser mais?
Eu já esperava por isso. 
Na verdade pedir para sair por um tempo de um de um emprego como o meu não é uma decisão das mais comuns mesmo. ( não aqui no Brasil)
O que me surpreendeu foi a reação que encontrei em várias outras pessoas, pilotos ou não:
Quando eu contava da minha decisão elas começavam imediatamente a se justificar por não terem optado por isso também!

O detalhe é que eu não estava cobrando ninguém a me acompanhar. 
Acho  que no fundo muita gente também gostaria de ter um "período sabático", só que ainda não sabe disso ou ainda não se deu conta que , para realizar, é preciso começar a pensar nisso como algo possível. 
 E enquanto isso não ocorre qualquer coisa é a melhor desculpa do mundo.

A verdade é que a sociedade nos cobra um determinado tipo de comportamento padronizado. Principalmente quando se tem filhos. E ficar um tempo sem trabalhar por opção definitivamente não se encaixa muito bem nesse padrão.  

É o que eu e a Alessandra chamamos de “brete”. O brete é aquele lugar onde o gado fica todo apertado, todos seguindo um mesmo caminho (geralmente para o abate).
 Quem está no brete não deve questionar nada. Deve simplesmente ir  onde todos vão e fazer o que todos fazem.  (Afinal, se todos estão fazendo, deve ser o certo)
Mas às vezes alguém questiona esse estado de coisas. Instantaneamente todo o resto do gado passa a olhar para ele com estranheza. Deve ser doido. Com certeza é um irresponsável. Coitadas das crianças.
A questão é ,quanta importância dar a essa cobrança e a esse padrão pré-determinado?
Vou dizer uma coisa: solicitar uma licença não remunerada para uma viagem de veleiro é um passo bem grande para fora do brete.
E  o resto do gado está olhando para nós.    


Comentários

  1. Parabéns pela decisão. Conheci vcs por alguns vídeos no YouTube e decidi verificar a história de vcs. Maravilhosos os vídeos e o estilo de vida de vcs.
    Sou apenas um lancheiro, que quer migrar para a vela. Vcs são uma linda fonte de inspiração.
    Que bacana !!! O mais interessante é que todos são tecnicamente bons, interessados nas coisas do mar e vela. Toda a fãmilia.
    Vou acompanhar sua linda trajetória.
    Parabéns novamente!

    ResponderExcluir
  2. Ainda não tenho certeza se teria coragem de atravessar o Atlântico em um catamarã de apenas 42 pés! E com minha família!! Parabéns!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário